Quando a HP anuncia que poderá substituir até 6.000 funções por sistemas de Inteligência Artificial, não estamos apenas diante de uma notícia corporativa: estamos observando, quase em tempo real, uma mudança de época. Ao longo da história, cada nova tecnologia deslocou tarefas, profissões e certezas — do tear mecânico às linhas de montagem robotizadas. A diferença, agora, é que a IA não se limita a músculos de aço; ela começa a disputar espaço com o cérebro humano, automatizando decisões, análises e até processos de recrutamento e seleção. Perguntar se empregos serão afetados é quase ingênuo; a questão central é como a sociedade, as empresas e os profissionais vão lidar eticamente com essa transição.
Do ponto de vista do mercado de trabalho e da atração de talentos, a promessa da IA é sedutora: redução de custos, aumento de produtividade, triagem mais rápida de currículos, atendimento automatizado 24/7. No entanto, cada ganho técnico carrega um dilema humano. Quem será priorizado para requalificação quando funções forem substituídas? Quais vieses serão incorporados — e amplificados — por algoritmos que aprendem a partir de dados históricos, muitas vezes marcados por discriminação de gênero, raça e idade? E, sobretudo, quem responde moralmente quando um sistema, em silêncio e em escala, passa a excluir determinados perfis de candidatos do processo seletivo? Se a responsabilidade é sempre “do software”, então, na prática, não é de ninguém.
É aqui que a ética deixa de ser um luxo filosófico e se torna requisito estratégico. Empresas que, como a HP, apostam em automação intensiva, precisam de algo mais do que um plano de corte de custos: precisam de uma política clara de responsabilidade tecnológica. Isso inclui avaliar impactos sobre comunidades e cadeias de fornecedores, estabelecer metas de requalificação realistas, monitorar continuamente sesgos algorítmicos e dar transparência aos critérios de decisão automática em recrutamento e gestão de pessoas. A questão não é impedir o avanço da IA, mas decidir conscientemente em nome de que valores ela será utilizada. Substituir 6.000 funções pode ser uma decisão economicamente racional — mas será socialmente aceitável se for tomada sem diálogo, sem preparação e sem alternativas concretas para os trabalhadores afetados?
Para profissionais de Recursos Humanos, recrutadores e líderes de negócios, a verdadeira vantagem competitiva não estará apenas em adotar a IA, mas em governá-la com responsabilidade. Isso significa desenhar processos seletivos híbridos, em que algoritmos apoiam, mas não substituem, o julgamento humano; significar investir em formação continuada em vez de obsolescência programada de carreiras; e tratar cada implementação tecnológica como um experimento ético que precisa ser monitorado e ajustado. Se a história da tecnologia nos ensina algo, é que ferramentas poderosas ampliam tanto as nossas virtudes quanto as nossas falhas. A decisão que temos pela frente — em cada nova vaga automatizada, em cada currículo filtrado pela IA — é se faremos da tecnologia um instrumento de exclusão eficiente ou um aliado consciente na construção de um mercado de trabalho mais justo, transparente e humano.
Artigo Original: HP to replace up to 6,000 roles with AI

